segunda-feira, 15 de maio de 2017

álcool na ferida

Escolha seu inimigo

Fala moçada!
Depois de muito ler e ouvir as redes sociais após o dia marcante da semana que passou (quando houve o duelo Moro x Lula, em Curitiba), resolvemos mais uma vez ceder nosso espaço a um debate que consideramos pertinente e essencial para compreendermos certas noções.
O motivo de escolher o texto abaixo foi por conta duma resposta a uma postagem dum amigo nosso que quase nos fez cair da cadeira. Esse nosso camarada pôs em destaque na sua timeline a famosa frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que diz que "a cadela do fascismo sempre está no cio". Pois bem, amigas e amigos: em vez de simplesmente comentar essa idéia que a cada dia é mais atual e clara no Brasil, uma amiga de nosso amigo preferiu criticar aspectos totalmente fora do contexto do conceito: "Essa frase é machista". Isso mesmo: "Essa frase é machista".
Não quisemos acreditar que nada há de melhor pra se comentar acerca duma uma frase que traduz bem um país em chamas depois do golpe, a um passo da aniquilação total de tudo que foi construído em pouco mais de uma década. O Brasil quase sendo destruído, um ex-presidente sendo perseguido implacavelmente pelos inimigos do Brasil porque eles sabem que as chances de retorno são enormes (e com ele o papo é outro), e a preocupação maior de algumas pessoas é que usar a palavra "cadela" numa frase soa machista.
Diante de algo que definitivamente não é sério, ficamos aqui pensando em responder a isto, até que tivemos acesso a esse texto escrito por Rodrigo Perez Oliveira, que praticamente traduziu nossa ojeriza à tamanha falta de bom senso do elemento em questão. Porque há outras questões embutidas, como certas declarações que estão sendo feitas por diversas pessoas de forma totalmente infeliz ou equivocada e que não nos parecem ter sentido ou significado na atual conjuntura. Gente que deveria ter um senso crítico mais apurado, que já deu contribuições interessantes ao debate, mas que agora parecem fazer o jogo do inimigo, perdendo tempo com bobagens similares ao "machismo de Bertolt Brecht". Pontualidades que apenas abastecem os malditos inimigos do Brasil de argumentos e que ajudam a cristalizar na mente de milhões de brasileiros sem nenhuma noção dos fatos as noções mais absurdas sobre assuntos que têm de ser levados a sério (como a própria questão do machismo). Condenando inclusive todo um movimento, toda uma luta diária, o que é injusto demais com as causas, já que a péssima colocação de certas pessoas não pode ser justificativa pra se invalidar tais lutas e tais causas.
Sendo assim, deixamos para leitores e leitoras as considerações acerca do assunto. E mais uma vez agradecemos ao companheiro Rodrigo pela gentileza em nos deixar publicar suas impressões para que possamos debatê-las, seguindo o espírito de nosso blog.
Nossa conclusão se resumirá na famosa frase atribuída a Tom Jobim: "O Brasil não é pra principiantes". Ainda bem que Jobim (se é que foi ele) usou a palavra "principiante", que é um substantivo comum-de-dois-gêneros, assim não tem como acusar o falecido de algum provável "equívoco identitário"...

Obs.: Avisamos que esse texto tem uma pegada totalmente diferente da nossa (e ainda estamos refletindo muito sobre isto, por ser válida), e que por isso mesmo julgamos ser importante para podermos entender melhor o que de fato estamos combatendo e, principalmente, se estamos do lado certo da trincheira mesmo. Não dá pra pagar pra ver e depois lamentar o segundo colocado nas intenções de voto (o que chamam de "mito") tomar posse em 2019 por causa dum palanque deserto de objetividade.


ÁLCOOL NA FERIDA
Rodrigo Perez Oliveira*


Juro pra vocês, meus amigos, do fundo do coração: respeito mais os coxinhas que apóiam Sérgio Moro do que os esquerdetes que são feitos do mesmo barro que Laura Carvalho, Luciana Genro e Gregório Duvivier. É que em pelo menos num aspecto os coxinhas são melhores que os esquerdetes: na capacidade de entender a realidade, de ler o mundo. Eles entenderam a história recente do Brasil melhor que os esquerdetes. Explico.
Os coxinhas têm motivos de sobra pra odiarem Lula, pra quererem vê-lo morto. Eles entenderam perfeitamente o que aconteceu no Brasil nos últimos anos.
Os coxinhas olham para Lula e enxergam o que ele realmente é: um nordestino lenhado, fudido, sem ensino superior, que ousou ser Presidente na República fundada pelos bacharéis.
Os coxinhas sabem, perfeitamente, que foi no governo de Lula que o Bolsa-Família foi instituído. Sabem que o Bolsa-Família inflacionou o preço da diarista. Óbvio, né? Se em casa, de boas, sem fazer nada, a companheira já tem o mínimo pra comer, ela só vai sair pra limpar a privada da madame por um preço justo. Tá mais que certa!
Os coxinhas não são burros, ah não são mesmo! Eles entenderam que com Lula o Brasil mudou. Vocês lembram daquele filme da Jéssica [Que horas ela volta?] ? Então, lá pelas tantas, a madame paulista olha pra filha da empregada e diz: "Nossa, você quer fazer arquitetura? Esse país mudou mesmo." Os coxinhas sabem, meus amigos, sabem que o Brasil mudou, e mudou muito.
Os coxinhas sabem que foi no governo de Lula que o sistema de cotas se consolidou nas universidades brasileiras. Eles sabem como está mais difícil conseguir aquela vaguinha na medicina ou no direito. Eles viram o filho do porteiro entrando pra universidade.
Sim, meus amigos, é muito difícil reconhecer, mas os coxinhas sabem perfeitamente o que estão fazendo.
Já os esquerdetes, ah os esquerdetes, esses são os piores!
Qual é a envergadura política de um Gregório Duvivier para dizer que Lula não transformou a realidade brasileira? Ele precisou de cotas pra estudar na PUC? O apê do papai dele lá na Gávea foi financiado no Minha Casa Minha Vida?
E Luciana Genro? De onde vem a autoridade política dela? O que ela representa? Já governou o quê?
E Laura Carvalho, vem de onde? Quais cargos já ocupou? Ela já foi Ministra da Fazenda? Já comandou o Banco Central? Já sentou numa mesa pra negociar com a FENABAN? "Googlem" aí, amigos, e vejam o que é a FENABAN. Vejam o tamanho do problema que os governos petistas enfrentaram.
Diferente dos coxinhas, meus amigos, os esquerdetes não sabem de nada, de nadica. Eles nunca fizeram nada. Não têm compromisso com legados. Não entenderam porra nenhuma.
Os esquerdetes são incapazes de perceberem a realidade tal como ela é. Acham que a realidade se curva ao discurso, se curva ao desejo.
Quando Duvivier diz que "a esquerda precisa superar Lula", ele sugere que algum outro cândido progressista irá conseguir tocar no eleitor que mora lá no interior do Piauí. Ele acha que as esquerdas devem produzir outra liderança, provavelmente um culturete leite com pêra, nascido e criado no sul do Brasil. Quem sabe até mesmo um carioca, um freqüentador lá da Praça São Salvador. Um poeta independente, vestindo camisa com estampa de florzinha. Desses tipos "fluidz", desconstruídos, que um dia gostam de ppks e no outro namoram pelo bumbum. Isso, um cara desse tipo, que escreve "queridxs", ou "amig@s".
Já pensaram, meus amigos, o material da campanha circulando lá no sertão do Ceará? "Brasileirxs, vamos construir juntos um país melhor!". O sertanejo semialfabetizado olhando pra esse X encravado no meio da palavra e pensando "Que porra é essa? Deu defeito no computador?".
Já pensaram no sertanejo com esse santinho na mão? Um santinho cheio dos empoderamentos, dos "gaslighting" e dos "mansplaining"?
Já pensaram um culturete como candidado à Presidência da República propondo discussão sobre nome social? Prometendo construção de banheiro pra travesti?
Já pensaram essas pautas postas como agenda eleitoral em um país que periga voltar para o mapa da fome?
Quem sabe Duvivier esteja pensando nele mesmo, no seu próprio nome... Aliás... já pensaram Duvivier como candidato? Falando pras massas? Luciano Huck está fazendo escola!
Os esquerdetes não se enxergam, não entenderam como as coisas funcionam por aqui.
Lula levou vinte anos pra conquistar a confiança da nossa gente: nosso povo não votou em Lula em 1989, não votou em 1994, não votou em 1998 e não votou em 2002. Nosso povo somente começou a votar em Lula em 2006, quando viu a promessa virar realidade, a utopia virar pão e farinha na mesa. Somente em 2006 aconteceu uma clara divisão classista na contagem final dos votos: os mais fudidos com Lula, o resto com o outro.
O povo não gosta de utopia, não tem tempo pra utopia. O povo quer presença, quer materialidade, quer comida na mesa, quer casa pra morar. O povo quer consumir. E tá certíssimo!
Os playboys de esquerda não conseguem entender o óbvio: o povo brasileiro está convencido de que somente Lula é capaz de liderar um governo que permita uma "vidinha digna" para os mais pobres.
Esse é o termo: vidinha digna. Nosso povo só quer uma vidinha digna.
O nosso povo não gosta da esquerda, não gosta de revolução, não gosta nem de greve. Nosso povo gosta do Lula.
Por isso, Lula ainda vive.
Por isso, depois do maior massacre midiático da história desse país, Lula pode entrar no tribunal, falar grosso com o juiz e sair andando, abraçado pelo povo.
Lula cagou na cabeça de Sérgio Moro. Os coxinhas sabem disso. Os esquerdetes não sabem.
Conclusão: os coxinhas são mais inteligentes que os esquerdetes.


* Rodrigo Perez Oliveira é doutor em história social pela UFRJ e professor adjunto de teoria da história da UFBA

quinta-feira, 27 de abril de 2017

o dia da maldade 3

E segue o massacre

26 de abril de 2017.
Mais um dia tenebroso em nosso país.
296 SIM. 177 NÃO.
Curiosamente, alguns golpistas desertaram. Foram 367 SIM naquela ocasião e dessa vez 71 (número bastante emblemático) não quiseram votar com os colegas cretinos. Medo das urnas em 2018?
A CLT já tinha sido rasgada no mês passado quando a terceirização total foi aprovada. Ontem finalmente foi incinerada.
A maior parte do proletariado brasileiro ainda não entendeu o que acontecerá daqui pra frente, porém sentirá na pele quando sair de férias (3x sem juros no cartão, olha só que beleza!). Aliás... Férias pra quê? O patrão precisa de sua ajuda, não pense em férias, trabalhe!
E assim como escrevemos no primeiro dia da maldade (10 de outubro de 2016), de nada adiantou explicar.
De nada adiantou ser contra.
De nada adiantou dizer em português bem claro e chulo "vamos nos f...!!!"
E agora, o que dizer?
Assim como naquela ocasião, passamos a palavra ao nosso querido afroameríndio Alberto Patrício. Fala figura!

Onde estão as panelas?
Onde estão as camisas da selenike?
Onde estão os cartazes "Cunha é meu amigo"?
Onde estão os discursos de "intervenção militar constitucional"?
Onde estão as selvies com a Polícia Militar?
Onde estão os festivais de relinchos tão bem publicados pelos Jornalistas Livres?
Onde está essa galera que era tão indignada "contra tudo que está aí?"
PARABÉNS, "MILITANTES". SEUS PRIVILÉGIOS ESTÃO GARANTIDOS, E AGORA NUM PRAZO ETERNO.
Lutemos para não voltar às senzalas, mas para nos aquilombarmos mais ainda!!!

E o que mais nos tem feito gargalhar é vir os mesmos come-fenos de outrora dizendo que aderirão a greve do dia 28!!! COMO ASSIM??? Greve não é coisa de vagabundo??? Vai pedir um vale pro patrãozinho querido pra comprar o feno do almoço e a alfafa do jantar, ora!
"Primeiro a gente tira a Dilma; Depois a gente..." NUNCA esqueceremos o mantra acima, nem quem o relinchou.
Obrigado, parabéns e uma salva de palmas a todos os envolvidos!
Nós avisamos.
Sem mais.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

malacanotas musicais 1

alguns discos que ouvimos recentemente

Falaê moçada!
Hoje dissertaremos sobre música, algo que não fazemos já faz um tempinho, pra fugirmos um pouco das loucuras que estão nos impondo de modo inclemente. Nada como uma musiquinha para espantar esse mal-estar generalizado que acomete nossa nação...
Neste caso, falaremos de 3 discos excelentes para conhecermos o que a música brasileira tem produzido de bom e de novo (ainda que um dos álbuns venha a debutar ano que vem) e que devemos ao menos escutar com atenção. Exporemos aqui na ordem em que escutamos cada obra.


Eletrorústicobarracocêntrico - Ludi Um

Escutamos esse disco, gravado em 2003, assim que reencontramos esse ex-aluno do Cefet-RJ, contemporâneo de 1992.
Um disco de tiro curto (apenas 5 faixas), porém de alta voltagem, que mescla inúmeras influências do que há de melhor na música preta, entre instrumentos com muito peso, scratchs e beats eletrônicos, e letras com teor social e uma pitada de meio-ambiente bastante precisa.
Os nomes que o cantor e compositor utiliza pra nomear suas músicas já demonstram essa faceta ecológica ("Como a garça coberta de óleo" e "Nada machuca os peixes") e o conteúdo das letras evidencia seu total engajamento, sem perder a sensibilidade. Destacamos também a faixa "Dá mole que um dia explode", de letra adaptada dum poema de Bráulio Tavares, de bastante relevância pela mensagem da letra e também pelas palmas que estimulam a dança na pista.
Aliás, é possível balançar o esqueleto quando se ouve cada faixa assim como também pode-se ouvir o álbum autoral de Ludi todo numa mesa com um copo de suco de acerola com laranja ou uma tulipa com um chope bem tirado...
Portanto essa é nossa primeira dica. Segue o link:



21 de março de 1973  - Homobono

Lançamento desse ano, o álbum de estúdio desse elemento de muito swing e pouco isguéri-guéri é o primeiro assinado somente como Homobono, ele que já tinha se lançado na música como Minha Pequena Soundsystem, um trabalho-solo paralelo às suas atividades como guitarrista, letrista e vocalista da banda carioca Los Djangos.
21 de março de 1973 é um disco adequado para pistas e casas, quartinhos, ruas e rodovias. A sonoridade pop é mesclada a elementos da música moderna (como sintetizadores e bateria eletrônica) e fervilhado de guitarras e percussões adicionais, numa produção assinada pelo próprio Homobono.
Letras muito bem humoradas para falar de religiosidade ("Jesus Cristo é ótimo"), crítica social ("Nervo asiático"), romantismo ("Sobrevivente") e ainda sobra tempo pra falar de quem quer viver (ou vive) de música ("Muito loka essa banda"). Sem contar os diversos bilhetes espalhados pelas 6 canções que compõem o álbum, 100% autoral (entre elas, duas parcerias).
Para esse disco, vale o mesmo comentário final que fizemos sobre Eletrorústicobarracocêntrico: ouça-o bebendo ou dançando, dá no mesmo...
Segue o link da segunda dica:



Penteado  - Guga_Bruno

Esse já é um álbum que nós não definiríamos num primeiro momento como "de pista", como os de Ludi e Homobono. Ou pelo menos não aparentemente, porque se a pessoa usar a imaginação pode até deslizar na areia, ainda que sem ouvir uma banda sem fúria fazendo a cozinha pra esse disco...
Pois é esse o clima desse que é o terceiro trabalho solo de nosso amigo Bruno (ou Guga ou Guga_Bruno). Um disco que convida o ouvinte a viajar pelas 10 faixas autorais, a começar pela excelente "Zoo", que abre o disco, e "Seu Pepeu", logo a seguir.
Penteado é um disco de violão. Aliás, a sonoridade extraída desse instrumento nos remete aos Di Giorgios que foram utilizados pelos músicos nos anos 1960 e 1970, ou seja, um resgate realmente importante dum timbre esquecido.
Não foi preciso mais que simplesmente a voz e o violão para que o guitarrista da saudosa banda Chinelo de Couro Cru e os Cruzados de Canhota concebesse um trabalho muito bem feito. Além das faixas que destacamos, pedimos atenção à canção "Lagarto", gravada originalmente com a banda supracitada, e à afinação em "Canção despedida", caso você precise azeitar seu pinho...
Recomendação idêntica às demais: encha o copo ou a tulipa e curta dançando ou batucando...
Por fim, o link da terceira dica:



Esperamos que leitoras e leitores gostem de nossas dicas. Comentem à vontade e compartilhem se for o caso.
Em tempos de midiatização massacrante e jabaculê igualmente intenso correndo soltos por aí, tendo como conseqüência direta a imposição do que devemos ouvir (e gostar), as três opções são provas de que é possível fugir daquilo que se impõe como "de qualidade", muitas vezes nos enganando e nos fazendo crer que não há mais nada que preste em termos de música brasileira. Importante lembrar que raríssimas são as exceções que conseguem furar o bloqueio e aparecer na TV, nas rádios e nas redes sociais. E em geral, tais exceções costumam ser efêmeras, pois a mídia odeia quem vende sem se vender...
Querendo ou não, com seus trabalhos Ludi, Homobono e Guga, cada um dentro de sua seara, nos mostram que há alternativas. É só procurá-las.


segunda-feira, 27 de março de 2017

povo enlatado, povo feliz


"vamos cuidar das pessoas"

Falaê galera!
Novamente estamos aqui com nossas palavras ácidas e bem-humoradas, desta vez para dissertar sobre um problema que tem causado muito ruído, porém que segue silenciado por não ter o tratamento adequado pra causar impacto.
Aconteceu nos primeiros minutos de ontem, domingo 26 de março.
Tínhamos acabado de chegar de mais um evento popular na CEB Santa Veridiana (por sinal, qualquer hora dessas, falaremos sobre esse espaço vivo de cultura, onde costumava haver muita coisa bacana). Descemos do BRT Transoeste e nos encaminhamos para o ponto da Transcarioca a fim de retornar ao lar.
Na chegada ao local, a primeira constatação foi a de sempre: quatro filas muito grandes, todos à espera do ônibus articulado que seguiria para a Ilha do Fundão no modo parador. Indagamos a um popular sobre a demora do coletivo apenas para nos certificarmos de que o cenário não mudara desde a última vez em que estivemos no terminal Alvorada em janeiro: já tinha pelo menos meia-hora que nada acontecia naquele local.
Passou-se mais meia hora aproximadamente e a fila duplicou de tamanho. Até que o articulado comum chegou (comum, porque tem um modelo estendido desse articulado, cerca de 10 metros a mais). Assim que as quatro portas se abriram, fomos praticamente empurrados pra dentro do veículo que em poucos segundos lotou completamente. Com muito custo, as portas foram fechadas, porém já sabíamos que não seria mais assim porque sendo parador e tendo demorado tanto para passar, imaginamos como as pessoas conseguiriam entrar nas demais estações e depois como conseguiriam sair.
O fato é que ao passar da estação Rio 2, acabamos cochilando, cansados do evento em Santa Cruz. Acordamos já passando da estação do Ipase, faltando pouco pra saltarmos. Passaram-se uns vinte minutos talvez no cochilo, mas foi o suficiente para observarmos que seria impossível passar pelas pessoas sem empurrá-las. Uma mulher ao nosso lado também saltaria, mas antes de minha na Capitão Menezes. Interessante que ela não esboçou reação de saltar, talvez subestimando as pessoas em pé, não sabemos.
Quando o ônibus chegou à Praça Seca, a mulher mal se levantou direito. E acabou não se mexendo. Alguns passageiros ficaram irados. Ainda teve quem gritasse "vai descer!", mas de forma inútil, pois os motoristas do BRT não costumam dar maior atenção, ainda mais em caso de superlotação. Eles nem ouvem, em verdade...
Tivemos de avisar à mulher que se ela não forçasse passagem pararia no Fundão. Ela ficou com aquela cara de quem toma remédio "com gosto ruim" e nem se mexeu. Resultado: nem nós nem ela, pois ela não saltou na Capitão Menezes e nós não saltamos na Pinto Teles. Mais uma mulher e outro homem esbravejaram muito por não terem saltado também e a mulher continuou como quem não acredita naquilo. Tememos que irrompesse uma confusão no ônibus, que circulava com as portas todas abertas já que não havia como fechá-las.
Quando o ônibus chegou ao Campinho, o que já sabíamos aconteceu. Já tinha gente reclamando horrores do BRT. E aí não teve jeito: aos trambolhões, mulheres e homens foram passando como tratores, no desespero de saltar antes de o ônibus sair - sem ter como fechar as portas, poderia sair a qualquer momento. Foi nesse lance que conseguimos sair. Fomos os últimos e quase caindo no vão entre a plataforma e o coletivo, pois sentimos que ele estava arrancando enquanto pisávamos na estação. Aquela mulher que citamos foi praticamente expulsa aos empurrões e aos palavrões sem calão algum, sendo jogada quase de encontro à antepara e quase foi linchada e pisada pelos mais exaltados que não saltaram na Capitão Menezes e na Pinto Teles. Felizmente, a turma foi saindo da estação sem espancar a pobre senhora, porém as reclamações não tiveram fim.
Passado todo esse sufoco, passou um articulado indo pra Alvorada logo que o outro saiu pro Fundão e o tomamos pra nossa estação. Eram duas da matina quando finalmente chegamos onde queríamos.
Tudo isto que relatamos não soará como novidade para quem está habituado a tomar os ônibus do BRT aos fins-de-semana, em especial na transição de sábado para domingo. Sempre é assim: quando o relógio marca meia-noite, vários articulados param e o intervalo entre carros da Transcarioca varia de meia-hora a 45 minutos. Já os da Transoeste aparentemente têm um intervalo menor.
A quantidade de pessoas que fica esperando é tamanha que lotaria dois articulados. Tanto que observamos que muita gente não conseguiu entrar naquele ônibus e teria de esperar mais uma hora pra poder seguir viagem.
Observamos também que havia muita criança de colo no ônibus em que estávamos. E que no meio daquele tumulto no Campinho uma mulher desceu com uma menina. Ela só saiu ilesa porque ela já estava perto da porta. Ou seja, embarcou naquelas condições, sem ter como chegar a uma cadeira e foi certamente amparada por quem estava na porta. Olha o perigo que ela passou com a petiz! E se a confusão gerada pela mulher que comentamos fosse naquela porta onde a jovem mãe estava?...
Dessa vez não aconteceu, contudo quando estivemos certa ocasião numa situação dessa na Alvorada, teve tumulto e foram uns 10 ou 15 no Controle do BRT a fim de reclamar da falta de ônibus. Na gare, havia dezenas desses articulados parados, sem nenhum sinal de que seriam utilizados. E quando o ônibus finalmente chegou, o tumulto foi exatamente o mesmo.


E o que dizer de tudo isto?
Bom, pra começo de conversa... Por que não temos mais as opções de transporte quando o relógio marca 23 horas? Sim prezados e prezadas, algumas linhas de ônibus começam a minguar antes da meia-noite. Que tipo de estudo foi feito pela Prefeitura ou pela RioÔnibus, onde se constatou que não há necessidade de ônibus quando meia-noite se aproxima? Ou ninguém usa ônibus à noite ou de madrugada?
E o que é pior: nos bairros cortados pelo BRT, 97% das linhas que circulavam foram cortadas e as vans e kombis impedidas de trafegar. Portanto, para quem mora nas regiões abrangidas pelo corredor, só há o BRT praticamente. Porém depois da meia-noite, há um corte drástico na quantidade de veículos – e já está comprovado que muitas pessoas utilizam os coletivos, tanto quanto durante o dia, talvez até mais, porque as pessoas querem aproveitar o fim-de-semana para seu merecido lazer seja na casa de parentes, em parques públicos ou em bairros onde tem discotecas, boates e outros.
É quase certo que o cartel de Jacobarata alegará que é por questões de segurança, a violência urbana, etc. Pode até ser, porém atentamos para o fato de que distúrbios como esses não têm mais hora pra começar. Vandalismos nas estações do BRT, por exemplo, se tiverem de acontecer, acontecem a qualquer hora. Assim como assaltos dentro de ônibus (uma triste e dura realidade que tem aumentado muito na capital e Grande Rio). Já foi o tempo em que havia "horários perigosos", isso já é fava contada há tempos.
Observem como o famoso direito de ir e vir é vilipendiado. Ônibus só serve para atender a necessidade de trabalhadores que laboram no horário comercial (nem pra estudar serve mais, o cartão dos estudantes o tempo todo tem problemas...). Ou seja, vida noturna e trabalhos à noite e pela madrugada foram proibidos na cidade e ninguém sabia...
O que na verdade acontece é que há uma criminosa conivência entre o poder público e o cartel dos ônibus no Rio. Segundo dados da própria Fetranspor, são cerca de 5 milhões de passagens vendidas por dia, gerando uma receita de 19 milhões de reais. Multiplicando no mês e no ano, as cifras batem a casa dos bilhões.
Além disso, a profissão de cobrador está praticamente extinta na cidade, uma linha ou outra ainda mantém esse profissional. Isso significa menos trabalhadores para manter, menos custos, encargos, impostos, e mais dinheiro no bolso dos mandatários dos ônibus.
Todavia nada disto se tornou algo relevante para a mobilidade urbana como um todo, nem para a própria prestação do serviço. Ao contrário, houve pioras:

1.    Não há mais agilidade na condução dos coletivos, já que o motorista faz função dupla, tendo de dar troco e dirigir. E tal fato fez com que o número de motoristas afastados mais que duplicasse nos últimos 5 anos, seja por conta de acidentes no trânsito, seja por falta de condições emocionais/psicológicas pelo stress gerado diariamente.

2.    Com essas mudanças por conta não apenas dos corredores do BRT como também com a implantação do VLT na zona central do Rio, diversas linhas ou foram abolidas ou muito modificadas, por causa do impacto no trânsito naquela região, causando confusão por um bom tempo até que as coisas se ajeitassem satisfatoriamente – o que ainda não aconteceu.

3.    E no caso especial dos BRTs, ainda tem a questão das tais "linhas alimentadoras", que em determinados locais mais matam de fome por conta duma espera interminável, mesmo durante o dia.

Fora tudo isto, ainda há outros aspectos como a falta de climatização de TODA A FROTA de ônibus da cidade, uma promessa de campanha do ex-alcaide que já foi cobrada mesmo pelo Ministério Público. Esse ano 100% do efetivo deveria estar refrigerado, porém não é o que observamos e não nos parece que Jacobarata e seus blue caps estão querendo se mexer quanto a isso. Lembrando que o valor de R$ 3,80 foi definido com o objetivo de se proceder à aquisição de ônibus climatizados, porém ainda há linhas que NUNCA tiveram carros com esse equipamento.
Portanto, o que relatamos na Terminal Alvorada é também reflexo da própria maneira como a concessão pública de linhas de ônibus é explorada (não se esqueçam: linha de ônibus é concessão pública como as autonomias de táxi). O cartel RioÔnibus é ainda pior que os de Cali e Medellín, na Colômbia, porque trata-se de algo legalizado, porém pessimamente gerido e sem qualquer tipo de fiscalização mais rigorosa.
O curioso é que soubemos à boca pequena que as empresas de ônibus estão recrutando motoristas, pois esse profissional estaria "em falta no mercado". Ora, e quanto aos muitos demitidos ao fim da função de cobrador (de quem era exigida a habilitação D), não poderiam ser reaproveitados?
E no caso do BRT, se o problema é a falta de motoristas com CNH E, por que não se capacita os que já dirigem ônibus a fim de que eles tenham carta pra condução dos articulados? Ah, é verdade, chama-se investimento, e investimento demanda dinheiro, e dinheiro é tudo que esses malditos querem usar, pra não faltar pros iates, mansões e heranças deste império...
Pois esses são os fatos, meus amigos. O problema da mobilidade urbana foi exposto aqui neste artigo e sabemos que tipo de solução deve ser aplicada. Porém se o Poder Público não pressionar o cartel, nada será resolvido. Mesmo o Ministério Público tem de ser acionado o tempo todo por nós, usuários desse modal que é um dos mais caros do país em termos de funcionalidade e custo-benefício. Se houve avanços como o bilhete único, os problemas estruturais seguem a todo vapor. De nada adianta facilitar pra população com esses bilhetes e o modal permanecer defasado.
Por fim, ou muda-se esse cenário horroroso ou seremos condenados a essa sensação de estar como sardinha enlatada. Não é nada sensato esperar um óbito pra que se tome uma providência. E no caso que contamos, nada garante que a próxima vez não acabará de forma trágica. Pois nós QUASE caímos do ônibus e a mulher QUASE foi espancada. E se a próxima jovem mãe vir seu bebê cair entre o ônibus e a plataforma e ninguém conseguir segurar o motorista, faz como? Culpar a RioÔnibus? Espancar o alcaide atual? Pois é, mas nada disso trará a integridade física dos passageiros de volta. Afinal, em se tratando de seres humanos, perda alguma é passageira...


EPÍLOGO

Algumas pessoas na estação do Campinho comentaram sobre a falta de educação de alguns que ficaram nas portas travando-as, com o ônibus em movimento. Disseram que "apesar de a prefeitura ter culpa, vandalismo também não resolve, povo sem educação é isso aí".
É evidente que não somos fãs de quebra-quebra de estações ou de ônibus. Em verdade, é gol contra. Por outro lado, ponderamos o seguinte: será que essa mesma pessoa que critica nunca imaginou que essas atitudes, neste caso em especial que descrevemos, estão bem mais para conseqüência que pra causa? Pra ser mais claro: diante desse quadro caótico no BRT Transcarioca que se estende há ANOS na Alvorada, como a RioÔnibus responde a fim de mitigar esse grave problema?
Ora, é muito mais fácil pr'aquela pessoa que fez aquele comentário dizer que o povo é que não tem educação. "Porta aberta à força no BRT" é algo que não deixa dúvidas sobre o que pensar. Só que esse tipo de reação, a nosso juízo, só expõe a derme, e não a víscera. Trouxe-nos a impressão de que a porta escancarada é muito mais grave que não ter ônibus, quando na verdade uma coisa se torna conseqüência direta da outra. Por que o cidadão não praguejou contra Jacobarata e afins? Perguntamos a ele e não tivemos resposta, exceto um silêncio indiferente.
Nossa reflexão final é assim: em vez de somente apedrejarmos quem quebra ônibus e estações, não seria hora de metralhar aqueles que se utilizam de uma concessão pública para faturar em cima, pessoas que são diretamente responsáveis por essa situação de trevas que enfrentamos todos os dias na cidade, não importa se no BRT ou em coletivos comuns? Pois a jovem mãe e sua filha que vimos na estação não têm que passar um sufoco como aquele. Nem ela nem ninguém!
Convidamos leitoras e leitores para pensar nisto.


quinta-feira, 23 de março de 2017

o dia da maldade 2

governar é moleza


22 de março de 2017.
Mais uma data que entra pra História do Brasil de forma negativa. O dia em que a CLT foi rasgada de maneira inclemente.
231 SIM. 188 NÃO.

A terceirização total é o extremo-oposto do que o governo deposto propunha. Pois sempre procurou-se preservar a atividade-fim. Agora não há mais o que preservar.
O entreguismo do governo golpista e não-autorizado nas urnas chega mais uma vez a um pico. Porém vem mais por aí, não podemos afirmar que seja o ápice. A "reforma" da Previdência (que preferimos chamar de ENTREGA da Previdência) também está a caminho e fortalecida.
Observando o mapa da votação de ontem, verificamos que mesmo entre certos partidos da base golpista não houve consenso. Significa que ou estão balançados sobre se manterem golpistas ou seu curral eleitoral cobrou posição (o mais provável). Ainda assim, isso não foi o suficiente para deter a campanha da implosão do Brasil, uma espécie de "500 anos em 2" que talvez chegue ao fim ano que vem SE a população quiser que chegue ao fim.
Incautos não entendem o quão nociva foi essa decisão. Acreditam que basta ser CNPJ via MEI e tudo se resolve. Daqui a 20 anos, conversamos.
E assim como escrevemos no primeiro dia da maldade (10 de outubro de 2016), de nada adiantou explicar.
De nada adiantou ser contra.
De nada adiantou dizer em português bem claro e chulo "vamos nos f...!!!"
E agora, o que dizer?
Assim como naquela ocasião, passamos a palavra ao nosso querido afroameríndio Alberto Patrício. Fala figura!

Onde estão as panelas?

Onde estão as camisas da selenike?

Onde estão os cartazes "Cunha é meu amigo"?

Onde estão os discursos de "intervenção militar constitucional"?

Onde estão as selvies com a Polícia Militar?

Onde estão os festivais de relinchos tão bem publicados pelos Jornalistas Livres?

Onde está essa galera que era tão indignada "contra tudo que está aí?"

PARABÉNS, "MILITANTES". SEUS PRIVILÉGIOS ESTÃO GARANTIDOS, E AGORA NUM PRAZO ETERNO.

Lutemos para não voltar às senzalas, mas para nos aquilombarmos mais ainda!!!


Ao contrário daquele fatídico dia, não estamos mais à espera de um milagre. Pois temos consciência de que é o fim do espancamento sumário de panelas. Camisas da selenike desfilando incólumes pelas ruas, só durante a copa do ano que vem.
"Primeiro a gente tira a Dilma; Depois a gente..." NUNCA esqueceremos o mantra acima, nem quem o relinchou.
Obrigado, parabéns e uma salva de palmas a todos os envolvidos!

Nós avisamos.
Sem mais.



EM TEMPO: Após o crime cometido ontem contra o povo brasileiro, partidecos como o PSB e o PPS deveriam dar outro significado ao S de suas siglas ou então pôr outra letra. Assim como o próprio SD dos tucanos deveria dar lugar a outra coisa como a letra E de ENTREGUISTA, por exemplo (ou mudar o significado também). O segundo P do PPS pode ser de PELEGO. Assim teríamos:
PEB = partido ENTREGUISTA brasileiro
PPE = partido PELEGO ENTREGUISTA
PSDB = partido dos SABUJOS DERROTADOS do Brasil
E assim por diante.

sábado, 18 de março de 2017

a carne mais barata do mercado

que papelão hein!

Temos lido muitos textos e assistido muitos vídeos sobre essa questão da Friboi (que é apenas um dos segmentos da JBS). Tenta-se entender e explicar o que pode estar por trás de toda essa movimentação em relação a essa operação que devassou os frigoríficos de todo o país, tendo inúmeras pessoas citadas, desde empresários a políticos.
Muitas pessoas têm-se indignado com esses articulistas porque pensam que eles estão defendendo o segmento da "carne podre com papelão", o que realmente é compreensível porque eles tocam no assunto com um viés que mais lembra teorias conspiratórias (especialmente quando se diz que "os EUA têm interesse nisto", ou seja, na quebradeira dos frigoríficos brasileiros).
Confessamos que também ficamos irritados com a falta de objetividade desses camaradas. Talvez não tenham achado o tom certo pra comentar e acabaram sendo ridicularizados páginas afora. Se bobear, Leonardo Stoppa terá de fazer um novo vídeo a fim de explicar melhor sua idéia porque ela foi ofuscada pelo tom alarmista que ele imprimiu no vídeo todo.
Tentaremos ser mais práticos.
anos a JBS é acusada das maiores barbaridades contra a saúde pública, afrontando com força todas as regras da vigilância sanitária. Já foi objeto de denúncia diversas vezes e aparentemente nada era feito para punir os culpados e impedir essa cretinice de se vender alimentos estragados à população.
Eis que "no meio do nada" resolvem acionar a frigorífica e a notícia veiculada na mídia tem um tom catastrófico que NUNCA teve desde a primeira denúncia do grupo, que chegou a usar midiáticos para dar legitimidade aos seus negócios. Justamente num momento de quebradeira total de serviços e outros por conta do denuncismo que assolou o país via Lava-Jato. Aliás... O tom catastrófico se dá justamente por conta dessa enxurrada de denúncias, como se antes delas não houvesse gravidade alguma em se vender carne fora do prazo de validade com um disfarce convincente pro povão não perceber.
A questão toda, queridas e queridos, resume-se numa simples pergunta: Por que isso não aconteceu antes? Por que a JBS navegou em águas calmas por tantos anos, mesmo com tantas denúncias em cima? Falta de provas? Hahaha, não nos ludibriemos com algo tão tacanho, pois todas as denúncias contra a Friboi foram muito bem amarradas com provas concretas do que estava se passando naqueles frigoríficos.
É por isso que se desconfia com razão de uma tentativa de derrubada não da JBS, que é apenas uma empresa (de ponta), mas de todo um segmento frigorífico que passa a ficar sob suspeita (naquele raciocínio falacioso que ensina que "se os poderosos da carne fazem isso, imagina os pequenos"). Se pensarmos que a construção civil ficou em frangalhos depois de todas as revelações de esquemas por todo o país (isso porque os barões das obras todos foram destronados e as empresas médias que eram terceirizadas pelas grandes também dançaram), pode-se aplicar esse raciocínio aos frigoríficos.
E sempre se há o risco das demissões porque a credibilidade dessas empresas foi pro saco preto e assim ficaria insustentável manter uma empresa de pé sem ter consumidores, que obviamente não se arriscarão em comprar gato por lebre (ainda que ambos com caras de sadios). Não descartemos o fechamento de frigoríficos em todo o país por falta de condições, não apenas pelo lado sanitário, mas por não ter como se manterem financeiramente. Sem compradores, não há dinheiro.
Percebam que não estamos aqui fazendo defesa desses "criminosos da JBS". Apenas atentamos para o fato de que realmente pode haver muito mais que simplesmente pretender que "comer carne podre já deu". Fiquemos muito atentos mesmo a esse lance - e não estamos dizendo pra galera assistir jornal nacional ou novela.
E esperamos que os articulistas sejam mais sóbrios para falar do assunto e não percam o feeling para lidar com uma opinião pública já acostumada pelo PIG a espernear com qualquer notícia tola e se calar diante de um absurdo inominável. Esse assunto é seríssimo e não dá pra querer chamar a atenção da opinião pública acusando os Illuminatis ou os reptilianos só por acusar. Está na hora de se lidar melhor com as massas, informando com mais apuro para não correr o risco de a desinformação vencer mais uma vez.
Primeiro foi o pré-sal; depois as obras civis; agora, a carne. Quem será a próxima bola da vez?


EM TEMPO 1: Gostaríamos de saber o que a bancada do boi (que é uma das mais poderosas do país) pensa de tudo isso. Ou alguém tem dúvidas de que esses eventos a atinge diretamente? Lembremo-nos de que o volume de dinheiro que essa gente movimenta é muito grande e de certa forma os negócios são duramente atingidos. Ainda que ajam nas sombras, esses capitalistas do agronegócio não são fãs da idéia de que deixaram de lucrar "um pouquinho". Eles NUNCA se contentam em simplesmente lucrar. Tem que lucrar MUITO.


EM TEMPO 2: Engraçado... Ainda não prenderam Lulinha pelo caso Friboi. Geralmente o dono do empreendimento é o primeiro a dançar...


EM TEMPO 3: Raul Seixas previu tudo isso em 1975:

Eu já paguei a prestação da geladeira, do açougue fedorento que me vende carne podre que eu tenho que comer, que engolir sem vomitar

Quando às vezes desconfio se é gato, jegue ou mula aquele talho de acém que eu comprei pra minha patroa pra ela não me apoquentar!




quinta-feira, 9 de março de 2017

gente de bem com o mal

quem fala o que quer...

Rio de Janeiro, 8 de março de 2017. 9 horas e 35 minutos.
Resolvemos parar numa barraquinha a fim de comer alguma coisa, já que ainda não tínhamos tomado o café da manhã. Tivemos de resolver uma questão no Tanque, zona oeste do Rio de Janeiro, e estávamos voltando pra casa.
À parte: Em geral, gostamos do café da manhã das barraquinhas, são excelentes e tem muita variedade a preços pra lá de populares. Indicamos, inclusive, uma ao lado do terminal BRT de Madureira, em frente à estação do trem, que tem até uns lances fritos na hora, simplesmente apetitosos. Quem não é fã de coisas gourmet vai chorar de emoção ao comer e beber... Já onde estávamos, a barraca não tem o mesmo requinte, é mais modesta, mas seguia um padrão bem típico. Pães embrulhados no papel alumínio e bolos numa cestinha, além das indefectíveis garrafas Termolar coloridas, cada uma com um líquido (café puro, pingado, chocolate, sucos, etc.).
No momento em que iríamos perguntar os preços dos itens, uma voz feminina nos chamou a atenção, embora não tivesse sendo dirigida diretamente a nós, e nos fez calar:
_ Bom dia senhorrr, tudo bem com o senhorrrr?_ Ela estava simulando de forma francamente supérflua um sotaque que poderia ser de qualquer localidade, mas a julgar pelo que repararíamos quando olhamos pra ela, não era bem um portunhol e sim um inglês pra lá de fuleiro – nem quem não domina a língua anglo-saxã se expressaria tão mal.
_ É, porque é um bom dia apesar de tudo_ ela abandonou o "sotaque", já que nem o camelô nem nós demos créditos algum àquilo (se é que ela estava levando em conta nossa presença até então)_ Porque esse país tá cada vez pior, cada vez mais difícil viver aqui, com essa roubalheira, esse...
Foi nesse momento que resolvemos radiografar e analisar aquela mulher que estava falando sem parar. Aparentemente 45 anos, branca, cabelos cortados à altura das orelhas, não muito gorda e talvez 1,60. Ela estava usando uma blusinha dessas de alça bem fininha e era justamente entre o seio esquerdo e o ombro que havia o que nos chamou a atenção em definitivo: uma bandeira dos Estados Unidos tatuada em cores muito vivas, embora parecesse ser antiga, e logo abaixo a sigla "USA".
Fixamos o olhar naquela tatuagem por instantes, enquanto aquela voz, tão desagradável quanto o tom que ela usava pra falar, continuava:
_ Pois é, cada país tem o povo que merece [notem essa curiosa inversão no famoso dito popular], isso aqui tem mais jeito não... Paisinho medíocre, de gente medíocre, que só elege gente medíocre, por isso o Brasil tá assim, essa vergonha!
O camelô a essa altura não nos deu maior atenção porque estava escutando aquele discurso em silêncio. Difícil precisar se ele concordava com tudo aquilo, mas pelo que sentimos, ele estava se incomodando, mas como se trata de potencial cliente... Sim, é duro escrever isso, prezadas e prezados, mas é fato...
_ E o Carnaval? Ninguém tem dinheiro pra nada, mas chega carnaval vão encher a cara de cerveja... Pra que fantasia, somos todos um bando de palhaços o ano inteiro, fantasia pra quê? Agora que acabou o carnaval, todo mundo sem dinheiro, já que gastou tudo em bloquinho... E os palhaços reclamando da vida! Eu dou risada desses trouxas, hahahaha!
Então ela parou de falar do Brasil e, sem propor sugestões de mudanças, perguntou o que tinha pra comer.
_ É isso, é Brasil-sil-sil!!!_ completou, debochada. Foi quando respiramos pesado, ainda olhando pra ela. E ela notou. O camelô também, tanto que nos perguntou se comeríamos alguma coisa, talvez temendo alguma pancadaria. Respondemos em forma de indagação o que tinha e quanto custava cada item, sem tirar os olhos da infeliz. A essa altura nossa ira já era total e nossa expressão facial já entregava de bandeja o que pensávamos de toda aquela torrente de sandices vindas daquela infeliz.
Foi quando ela disse a palavra decisiva:
_ É meu filho, eu falo mesmo, a gente que é de bem é que sofre...
Sabem aquele momento em que você é tomado por uma surdez repentina e parece que um turbilhão se forma na sua cabeça e você se sente aéreo? Foi como nos sentimos ao ouvir aquela expressão. "Gente de bem"... Sentimos uma urticária feroz ao ouvir aquelas palavras e nossa respiração ficou ainda mais pesada. Alergia ou choque anafilático?
Não conseguimos manter o controle, amigas e amigos. Rimos debochados, olhando firmemente pr'aquela criatura. Ela evidentemente ficou pê da vida:
_ Tá rindo é, tem que rir mesmo, isso é muito sério! Paisinho de gentinha de mer#$%@a!!!_ Então gargalhamos. Ela notou que era de escárnio para com ela e se enfureceu:
_ Tá rindo de quê, tá rindo da minha cara, é???
Balançamos a cabeça, como quem recrimina uma criança (tsc, tsc, tsc...), e resolvemos sair dali o quanto antes. E aí ela relinchou aos berros com muita indignação algo que, se nos conhecesse, jamais relincharia:
_ Deve ser algum petralha, vai, ri mesmo, sou brasileira e amo meu país e não tenho medo de comunista, fique sabendo disso!
Inesperadamente, nos voltamos pra ela, olhando nos olhos e um passo à frente, e respondemos com voz firme, mas cheia de raiva, o que nos veio à cabeça naquele momento:
_ Não sou comunista, sou bairrista_ e desviamos de forma feroz o olhar pra tatuagem dela e voltando dentro de seus olhos:_ E minha bandeira, que é a do Rio de Janeiro, só tem duas estrelas!_ E fomos embora, sem olhar pra trás.
O festival de relinchos que se seguiu não é digno de nota, e nem mesmo prestamos muita atenção neles, então nem dá pra reproduz-los.
O fato é que quando seguimos pela Geremário Dantas, em direção ao BRT, nos demos conta dum perigo que poderia ter nos custado alguma coisa de sério. Passou pela nossa mente que aquela mulher poderia ter chamado atenção de alguém, e que esse alguém poderia ter tomado as dores dela, e corrido atrás de nós. E que ela poderia inventar alguma besteira que não dissemos, tendo o camelô como "testemunha", logicamente coagido. E tudo isso num dia como o de ontem, o Dia Internacional da Mulher. Seria o suficiente um linchamento moral sem tamanho, onde nos passaríamos por machistas e tudo o mais.
Pode parecer exagero de nossa parte, mas não é. Lembrem-se de que pessoas sem escrúpulos agem exatamente assim, como covardes que são. Ou então, por que as panelas permanecem em silêncio ante toda essa implosão de nosso país?
Um texto como esse deve fazer muitos que nos conhecem há tempos pensar que se trata d'alguma crônica de ficção baseada (ou não) em fatos reais, como escrevíamos nos anos 1990. Quem dera que fosse, camaradas... Pois aconteceu conosco ontem pela manhã e só não nos pronunciamos antes porque tínhamos muitas atividades e ficamos sem tempo.
Ontem ficamos frente a frente com o "inimigo". Frente a frente com o mais perigoso de todos os brasileiros: a tal "pessoa de bem". E confessamos: sentimos medo quando demos as costas àquela meliante (quase o mesmo medo de Regina Duarte...). Erramos. Sabe-se lá o que ela poderia ter feito? Lembramos que é recomendável que nunca reajamos em face do perigo, mesmo estando armados. Bom, nós reagimos. Sem gritar, mas com voz firme. Contudo ainda estamos vivos. Graças aos orixás.
E o mais impressionante em tudo isto é que essa mulher não sabe quem somos, nunca nos viu, nem mesmo do que somos capazes. Mesmo assim, não pensou duas vezes em destilar seu preconceito contra nós, nos julgando sem ao menos nos dar chances de uma justificativa, se fosse o caso. 20 anos atrás seria constrangedora uma abordagem tão insana quanto essa (que nos lembrou e muito o caso que contamos um tempo atrás chamado "O pernambucano paraguaio", onde também fomos vítimas de preconceito de etnia e de classe). Hoje não há mais máscaras: os cretinos agem sem se preocupar. Certeza da impunidade por pertencer a um grupo que se blinda com facilidade e que julga os outros pelo que os outros aparentam?
Assim finalizamos esse relato, alertando a todos que militem sem trégua, mas tomem cuidado quando o assunto for lidar com "gente de bem". Nem mesmo os achaques das autoridades políticas ou policiais são mais apavorantes que as palavras daquela gentalha tão bem representada como foi por aquela mulher. Não duvidem: são pessoas como ela que certamente seriam capazes de atirar em nós, só de nos vir num banco da praça, por desconfiar de nosso caráter, se o porte de armas fosse totalmente liberado, atendendo aos interesses da maldita "bancada (ou cambada) da bala". Como um Minority Report às avessas...
Nunca esqueceremos aquela maldita bandeira tatuada nem aquele asqueroso "USA". Graças ao discurso de ódio ao Brasil daquela mulher. Um discurso de uma virulência que nem mesmo nós, que nos dizemos muito mais cariocas que brasileiros, temos.
"E se fosse outra bandeira?", perguntam-nos os incautos, e obviamente a "outra bandeira" pensada seria a de Cuba, Venezuela, Coreia do Norte...
Ora, muito simples! Não advogaremos em causa própria, já que as tais bandeiras são sempre associadas à esquerda (seja pelo comunismo, seja pelo socialismo). Responderemos pelo viés capitalista mesmo: não poderia ser a da Suécia?
Beijos e abraços fraternos a todas e todos!!!


EM TEMPO: Acabamos por tomar café num botequim na Praça Seca...